Segurou-a com força pra machucar. Seus dedos, longos e ágeis, apertavam o braço e quase deixavam marcas na pele, se esta não estivesse tão marcada pelo sol. A raiva naquele gesto era enorme, não o faria se não fosse.
Desde quando estavam assim tão distantes? Desde quando não trocavam mais confidências e tampouco olhares de reprovação ou desapontamento por atitudes tomadas? Algo tinha morrido por ali, e não era só o filhotinho da cadela que tem em casa.
Pensou por alguns segundos em bons e maus momentos juntos. Mais maus do que bons, confesso, mas ainda assim eles tiveram momentos juntos, inegável. Pensou também em como seria dali adiante, em como conseguiria continuar no 'improviso' da vida sem aquela que seria sua quase diretora, e vice versa.
Imaginou estar com o rosto vermelho, ficava assim quando aflito ou envergonhado; mas não costumava ter vergonha de muitas coisas. Sentiu seu peito batendo. O coração querendo rasgar a maldita pele e saltar no colo da mulher em frente. Sua língua estava quente e seca devido a rápida discussão de alguns momentos atrás. Os olhos, claros em quase toda a íris, fixados, imóveis.
-Em quem você se transformou?
O braço ardia. A pele, recém bronzeada, queimava e começava a latejar devagar. Seus dedos fechados em punho tentavam demonstrar a força que sempre acreditou ter e que fazia questão de deixar transparecer; pensava que a tinha.
Queria sair dali, sumir, desaparecer, como nas conversas que tinham sobre fugir de algum lugar sem serem percebidos. Seus óculos, escuros, deixavam guardadas as lágrimas quentes na beirada dos olhos; bem nas beiradas.
Os dentes trincados, o rosto emburrado. Não estava necessariamente feliz, seu improviso não estava dando certo. A respiração agitada, os pulmões que pediam mais ar, mas este, ao invés de dar-lhe vida, levou-a a outros caminhos.
-Você quer dizer 'no que'.
Apertou-a mais, e pôde ver o desconforto do braço aumentando. Ficou satisfeito, mas ainda tentava digerir a resposta.
Lembrou das últimas semanas. Seu coração doeu e seus olhos marejaram. Sentiu um aperto vindo de não sei onde e permitiu que seus dedos se afrouxassem.
Algo ainda existia ali dentro. Dentro dos dois. Poderia ser só indignação e orgulho - sempre ele! -, mas existia.
Sua voz, rouca e falhada, queria explodir em desaforos e verdades doloridas, doídas demais para serem ditas a alguém que se quer bem; ou quase isso. Poderia encostá-la na parede e lhe dar uns bons tabefes. Ela aceitaria de bom grado! Mas em algum lugar debaixo de toda aquela arrogância e sarcasmo existia o par de bons programas de sábado a noite. Ele sabia que ainda existia!
-Você é um objeto agora?
Soltou um belo sorriso, de canto a canto dos lábios. Puxou o braço com rapidez suficiente para se sentir liberta. A pele exibia marcas que não eram as causadas pelo sol. Vermelhas demais. Doloridas demais. Levou a mão ao braço machucado e deixou as lágrimas correrem soltas pelo rosto. Doía. Céus, como doía! Mas não era o braço, era em outro lugar.
Sorriso e lágrimas não deveriam estar juntos na mesma face e ao mesmo tempo, mas ninguém havia dito isto a ela.
Deu um ou dois passos para trás, não agüentaria outro agarrão feito aquele.
Respirou. Fundo e calmo afim de parar com os soluços do choro. Parou. A boca, começando a ficar entreaberta, denunciava alguma resposta que chegaria feito chicote aos ouvidos. Mas não aos dela.
-Sou.
Soou seco, indiferente.
Tirou seus anéis um por um e jogou-os contra ele. Um por um.
-Coisa... - Jogou as pulseiras, - Coisa... - e os brincos, - Coisa. - o lenço que enfeitava seus cabelos, - Coisa. - e até seus óculos. - Coisa.
Estava à beira do ataque. Um parecido com o que teve quando se conheceram.
Gargalhou enlouquecidamente, engasgou e voltou a rir. Louca. Suas unhas, longas e bem feitas, apertavam a palma de suas mãos e faziam mais marcas naquele corpo já tão cheio delas.
Olhou-o. Estático. Fitava-a num sem-expressão que a deixou desesperada. Suas 'coisas' jogadas no chão gelado. Bens preciosos. Deu mais alguns passos para trás. Torceu o pé e quase caiu. Tirou as sandálias.
-Coisa!
Arremesou-as no alvo bem à frente. A primeira não acertou, parou longe. A segunda atingiu bem na boca. Assim ficaria quieto.
Uma fisgada no lábio inferior fez com que ele percebesse que se feriu, mas não se importou. Não era ali que doía. Se moveu lentamente em direção à sua agressora. Lentamente. Conseguiu chegar perto o suficiente para abracá-la sem que ela pudesse recuar ou fugir.
Apertou bem forte. Sentiu o corpo dela junto ao seu. As respirações agitadas. As peles arrepiadas. O Choro. Apertou-a contra o corpo, como se a protegesse, como se não a visse a anos. Mas não se viam a algumas horas, só.
Sentiu sua cintura ser envolta por braços. Braços queimados de sol e com algumas marcas de dedos, vermelhas ainda. Seu queixo apoiou-se na cabeça dela. Os corações batendo em ritmos diferentes, mas ainda assim, juntos.
-Rendida.
E as lágrimas de ambos se misturaram ao sangue, e às marcas, e à chuva que começava a cair.
Escrito a algum tempo atrás.
Gosto de muita marcação e poucas falas.
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