Era como num filme: centro da cidade à noite, plena terça-feira.
Meu vestido era para a festa, não era feito para mim, mas ninguém havia usado aquele modelo. Sapatos altíssimos nas mãos enquanto usava sandálias rasteiras nos pés. O restaurante, apesar de corriqueiro, era um dos meus favoritos.
-Você queria que seus amigos estivessem lá?
-Queria gente.
Abaixo a cabeça. Os olhos ardem, a garganta dá um nó. A garçonete surge e nos serve, no entanto, quando percebe que interrompe algo dá as costas sem terminar seu serviço.
Respiração pesada, uma tentativa frustrada de conter os pontinhos salgados de brotarem nos olhos.
Mas eles vieram, e bem pesados.
E então eu lembro de tudo o que aconteceu.
Da decepção no começo por entrar numa faculdade que não queria. A alegria por depois ter descoberto que era exatamente o que estava procurando.
Então eu lembro de quando matava aula para fazer nada. Do desespero antes das provas, os trabalhos sempre atrasados. Lembro daquela sensação que sentia ao poder sair da sala sem dar explicações, poder comer durante as aulas, poder fumar nos corredores.
Então eu lembro de como eu chegava tarde em casa. Das noites em que chovia e eu chegava absurdamente molhada. Dos dias de calor em que podiamos ir de Havaianas sem problema algum. É "fashion".
E eu lembro de todos os perrengues. De quando eu chorava por não ter grana pra comprar alguns materiais. Quando eu deixava a desejar nos trabalhos e me sentia péssima. De quando estava com tanto sono a ponto de não conseguir entender nada do que falavam.
E por último, eu me lembro de como cheguei tão sozinha até lá. Consegui entrar por mérito meu. Passei por todas as fases por mérito meu. Meus "10" e meu "Muito bom, isso é que é desenho!" foram todos conquistados por mim. Tudo o que fiz até hoje, fiz sozinha.
Eu chorei.
Um pouco por tranquilidade de ter batido mais uma meta. Mas, com certeza, mais por tristeza de estar mais uma vez "sozinha" numa noite que deveria ter pelo menos meia dúzia de pessoas.
Eu chorei.
Em pleno restaurante, numa noite de terça-feira, com os sapatos nas mãos e os olhos maquiados. Eu estava me sentindo estremamente sozinha, mas estava cheia de pessoas ao redor.
E assim foi minha comemoração quando me formei na faculdade.
Obrigada .
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